quinta-feira, 19 de abril de 2012

MMRCA da Índia passa por momento de inatividade


No sistema indiano de aquisição de defesa, na corrida para o prêmio de US$ 12 bilhões no programa de Aeronave de Combate Médio Multimissão (MMRCA), a piada era que a única coisa pior do que perder seria ganhar. Para a Dassault, essa realidade não está assim tão longe.

Após a oferta do Rafale que colocou o Eurofighter Typhoon para fora da competição em janeiro, sendo a concorrente de menor custo para o programa MMRCA, tem havido muita conversa sobre o destino do projeto, mas muito pouca ação. As conversações pararam desde o final de fevereiro, com consultas departamentais sobre alegações de que o processo de seleção final foi manipulado para favorecer o Rafale.

Semanas após a incerteza, o ministro da Defesa, AK Antony revelou na semana passada que o programa iria avançar somente após todas as investigações serem feitas e o ministério estava convencido de que o processo de seleção não havia sido corrompido. Mas isso pode não acontecer tão cedo.

“Há pelo menos mais sete a oito níveis de controle e de processo antes do contrato MMRCA poder ser assinado”, disse Antony. “O contrato tem que ser investigado em vários níveis, incluindo no Ministério das Finanças e pela comissão do gabinete de segurança. Agora um inquérito foi iniciado. Só depois de recebermos o relatório do inquérito, estudá-lo e estarmos convencidos de que todos os processos foram seguidos infalivelmente, o trabalho de aquisição poderá seguir para o próximo nível.”

Menos de um mês após o Rafale ser escolhido, o ministro da Defesa recebeu uma carta de MV Mysura Reddy, um membro da comissão permanente de defesa do parlamento indiano, pedindo uma investigação sobre o processo de seleção.

As alegações de favoritismo não são novas na contratação de equipamentos de defesa na Índia, e a carta poderia ser a primeira de muitas voltas numa viagem que dificilmente sofre com a falta de drama e intriga. Inicialmente, as autoridades indicaram que a questão possivelmente só receberia um olhar superficial para satisfazer as preocupações do legislador, mas o processo pode agora ser mais extenso.

Formalmente, as negociações entre a Comissão de Contratos da Índia e a Dassault começaram, mas na realidade as duas partes não se encontraram realmente uma só vez, como resultado da queixa, de acordo com autoridades próximas ao processo. O ministério se recusou a divulgar a natureza das suas investigações, embora em março, reconheceu que as questões internas levantadas sobre o custo do ciclo de vida do Rafale havia sido analisadas mas depois deixadas de lado.

Um funcionário da Dassault disse: “Estamos esperando para ver se nós podemos ajudar com qualquer informação. Nós trabalhamos com a força aérea indiana e o Ministério da Defesa há anos, e estamos confiantes de que nós fornecemos todas as informações necessárias e que estão totalmente compatíveis com o processo de seleção. O Rafale foi escolhido porque era a melhor aeronave apoiada por um pacote industrial melhor.”

No entanto, os atrasos estão começando a preocupar a eventual cliente. Fontes da Força Aérea Indiana disseram que o líder da Força Aérea da Índia, Marechal do Ar Norman Browne, que se reuniu com o ministro da Defesa na semana passada como parte de uma reunião do Conselho de Aquisição de Defesa (DAC), levantou questões preocupantes tanto sobre o programa MMRCA e como de atrasos num contrato final para um treinador básico.

O governo indiano negou a especulação de que a Índia e o Brasil negociam em conjunto com a Dassault por um preço melhor em comum do Rafale. “Isso é impossível e nunca pode acontecer”, declara AK Anthony. O Brasil deve fazer uma seleção do tipo entre o Rafale, Boeing F/A-18E/F e o Gripen da Saab. A visita do ministro da Defesa Celso Amorim à Índia, logo após a seleção do Rafale, deu origem a especulações de que uma parceria estava iminente, mas que foi descartada como mera coincidência. Além disso, a presidente brasileira, Dilma Rousseff esteve em Washington, e a competição de caças F-X2 também foi levantada.

A empresa mais ansiosa para ver problemas nas negociações do MMRCA é a vice-campeã Eurofighter. Funcionários da EADS, a parceira da aeronave Typhoon encarregada da campanha indiana, tem sinalizado que eles vêem o concurso como ainda valendo. “À medida que fomos L2 [segunda licitante mais baixa], levamos nossa responsabilidade a sério”, disse um funcionário da empresa durante a recente mostra de defesa Defexpo em Nova Delhi. “Há uma preocupação maior que a força aérea indiana não deve sofrer de qualquer maneira, como resultado de atrasos. Eles precisam de sua aeronave o mais rápido possível.”

A perda na Índia também deu origem a um interesse renovado na Europa para os principais governos do Eurofighter em avançar com uma atualização do radar para adicionar uma antena de varredura eletrônica ativa (AESA) no caça.

Os parceiros industriais do Eurofighter têm auto-financiado o desenvolvimento, na ausência de apoio do governo. Isso criou incerteza sobre a colocação do novo radar em operação, embora os funcionários do setor insistem que poderiam responder a um objetivo de 2015. Em contraste, o primeiro radar AESA de produção para o Rafale, o RBE2 da Thales, deve voar este ano; sendo o primeiro radar recentemente entregue a Dassault para instalação no Rafale C137, o avião que será utilizado para a campanha de teste no centro de testes de voo de Istres, no sul da França.

A França viria a ser a primeira Força Aérea da Europa a colocar em operação um caça com radar AESA quando o sistema estiver operacional.

Essa situação de incerteza também levou a uma contínua pressão política na Índia ao longo do programa. O Chanceler britânico George Osborne, que visitou a Índia na semana passada, ao que tudo indica fez mais uma pressão para o governo indiano escolher o Eurofighter. A delegação francesa também pediu ao seu vice ministro da defesa para ver se ele poderia ganhar mais informações sobre o inquérito.

No entanto, nem todas as atividades do programa estão congeladas. A Hindustan Aeronautics, que vai construir sob licença 108 caças MMRCAs, solicitou propostas para um novo projeto e nova fábrica da linha de produção em Bangalore.

Fonte: Aviation Week

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