quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Fornecedor da cadeia aeronáutica enfrenta retração de encomendas


A crise econômica nos Estados Unidos e Europa e seus reflexos no mercado aeronáutico atingem em cheio os fornecedores da Embraer no Brasil, que já registram uma retração de pedidos da ordem de 20% a 30%. Embora o mercado aponte para um crescimento da venda de jatos regionais nos EUA nos próximos meses, a disputa por novos contratos vem ficando cada vez mais acirrada com a entrada de novos competidores.

Além da Bombardier, com o jato CS-100, a fabricante brasileira também disputa a preferência dos operadores com o modelo japonês Mitsubishi Regional Jet, o chinês Comac ARJ-21 e o russo Sukhoi Superjet. Segundo relatório recente do J P Morgan, esses aviões foram responsáveis por 51% das 430 encomendas líquidas feitas entre 2009 e 2011, contra 19% entre os anos de 2007 e 2008.

A dependência das encomendas da Embraer, que vem reduzindo o volume de compra de peças no Brasil, associada à falta de capacidade financeira para investir em novos projetos e novas tecnologias são apontadas como as principais causas para a situação crítica que vive a cadeia Aeronáutica brasileira, formada hoje por cerca de 120 empresas. Esse parque emprega em torno de cinco mil pessoas, segundo Cecomp.

“Como o setor aeronáutico está passando por uma crise e o ritmo de produção foi reduzido, as empresas têm dificuldades para pagar os empréstimos já feitos e também para conseguir renegociar as dívidas ou mesmo para novos recursos”, explica um fornecedor da cadeia Aeronáutica.

A Graúna, de Caçapava, considerada uma das principais fornecedoras da Embraer, esteve a ponto de falir e hoje está em processo de recuperação judicial. O diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Edimir Marcolino da Silva, conta que para salvar a empresa o BNDES comprou 40% do capital, mas praticamente 100% do que a empresa fatura ainda depende da Embraer.

A empresa chegou a fornecer peças para a fabricante de motores canadense Pratt & Whitney, mas o contrato não foi adiante. “Nenhuma empresa da cadeia Aeronáutica, que tem grande dependência com a Embraer, está bem. Até 2010, a Embraer exigia que as suas fornecedoras dedicassem 70% da produção para a empresa, independente de ter pedidos ou não”, afirma o sindicalista.

A diversificação de atividades, considerada uma das alternativas para reduzir essa dependência e equilibrar as receitas, vem apresentando bons resultados, mas ainda para um número reduzido de empresas. É o caso da Globo Usinagem, que até o ano passado dedicava 80% da sua produção para a Embraer. “Hoje, estamos em uma situação sustentável, com 65% de nossas atividades para a Embraer e o restante para os setores automotivo, de óleo e gás e também exportação”, diz o diretor da empresa, Mauro Ferreira.

A Globo fornece peças Aeronáuticas estruturais para a empresa belga Asco e americana Eaton Aerospace, utilizadas na fabricação de partes dos aviões da Boeing e da Airbus. Para 2013, segundo ele, a meta da Globo é que o percentual da produção para a Embraer seja de 60%. A empresa se fortaleceu com investimentos que fez durante a crise. “Aplicamos R$ 6 milhões em novos galpões e na modernização do parque fabril. Também criamos um setor de vendas forte para explorar oportunidades no mercado externo”, explica o empresário.

O diretor do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) em São José dos Campos, Almir Fernandes, disse, no entanto, que o case de sucesso da Globo Usinagem ainda faz parte da lista de exceções da cadeia. “A maioria das empresas está com parte da produção ociosa e vêm mantendo as instalações mais enxutas para continuarem no mercado”, afirmou.

A Embraer, segundo Fernandes, está comprando em torno de 60% do que comprava antes da crise de 2008. “As empresas investiram muito para atender o crescimento da demanda da Embraer, mas a crise derrubou muita gente e algumas empresas não conseguiram se recuperar”, explicou.

A Embraer informou que não tem planos de reduzir a produção em 2013 e que espera um número muito similar de entregas, ainda que possa haver um mix diferente de aeronaves em relação a este ano.

O processo de internacionalização da fabricante brasileira, segundo o Valor apurou, com a recente inauguração de duas fábricas em Portugal e uma fábrica nos Estados Unidos, também contribui para que a situação da cadeia Aeronáutica brasileira esteja se agravando, tendo em vista que as atividades desenvolvidas pelas empresas respondem, em média, por 80% das suas receitas.

Os fornecedores reclamam ainda da falta de um posicionamento mais firme do governo, que não começou a colocar em prática uma política industrial bem definida para exigir e viabilizar, por exemplo, uma maior participação da cadeia Aeronáutica na fase de desenvolvimento de projetos financiados com recursos públicos, como o do cargueiro militar KC-390. A previsão é que o desenvolvimento da aeronave absorva US$ 2 bilhões em investimentos.

O Ministério da Defesa explica que, nos casos em que foi possível, foram selecionadas empresas nacionais para o fornecimento de alguns sistemas estratégicos do KC-390. “Há casos em que não há empresas nacionais capacitadas a fornecer os sistemas, como por exemplo, os motores, aviônica e sistema de lançamento de cargas”, respondeu o ministério.

Sobre os planos da Embraer para a produção de peças do KC-390 em Portugal, Argentina e República Tcheca, o presidente da divisão de Defesa e Segurança da empresa, Luiz Carlos Aguiar, explica que ela representará uma parcela mínima do volume total previsto para o programa. “Fizemos isso para garantir a venda externa do avião, porque esses parceiros, que também participam da fase de desenvolvimento, assinaram um compromisso de aquisição das aeronaves”, afirmou.

Aguiar lembra ainda que a República Tcheca e Portugal são países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Nato) e por conta disso o KC-390 já é mencionado no catálogo da entidade como um dos produtos de referência no segmento de cargueiros. “É importante lembrar que se não houver venda internacional do KC-390, ele não vai trazer os royalties, impostos, divisas e empregos na produção no Brasil”, ressalta.

Mesmo nos casos de compra de componentes importados, segundo a FAB, o programa do KC-390 terá acordos de offset (que envolvem compensações comercial, industrial e tecnológica) com fornecedores de diferentes países. Atualmente, a FAB informa que estão em negociação 14 acordos relacionados ao programa do KC-390, sendo que um deles diz respeito aos sistemas aviônicos, que serão desenvolvidos em parte no Brasil pela fabricante AEL Sistemas.

Fonte: Valor Econômico / Virgínia Silveira

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