segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ISTOÉ: Aeronáutica teme reabertura de licitação de caças para retribuir russos

A resposta de Dilma – Antes de cancelar sua visita aos EUA, a presidenta buscou apoio internacional, principalmente da Rússia. Saiba quais as consequências dessa decisão para o Brasil

Na terça-feira 17, a presidenta Dilma Rousseff cancelou a viagem oficial que faria aos EUA, em outubro. A decisão foi tomada depois de ela ser avisada por Barack Obama de que não haveria tempo para a apuração da espionagem feita contra ela e a Petrobras pela Agência de Segurança Nacional (NSA). Em nota, Dilma classificou a interceptação das comunicações como “fato grave”, “atentatório à soberania nacional” e “incompatível” com a convivência entre países amigos. A iniciativa já vinha sendo amadurecida desde o início do mês. Além de tratar do assunto com o ex-presidente Lula e o marqueteiro João Santana, conforme apurou ISTOÉ, a presidenta chegou a fazer consultas a outros parceiros, especialmente à Rússia, antes de anunciar a suspensão da visita a Washington.

No encontro do G-20, em São Petersburgo, no início do mês, o chanceler Luiz Alberto Figueiredo reuniu-se a portas fechadas com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, do qual obteve o compromisso de que apoiaria, inclusive nas Nações Unidas, qualquer medida de retaliação brasileira aos Estados Unidos. A atitude deixou a presidenta mais segura e confortável em tomar a decisão de cancelar a viagem. Considerado hoje o mais importante articulador da diplomacia internacional, Lavrov prometeu ainda apoiar o debate que Dilma pretende impulsionar na abertura da 68ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, na terça-feira 24.

O discurso da presidenta, antes focado no efeito negativo da política cambial americana sobre a economia brasileira, agora está moldado para angariar o máximo de aprovação internacional à criação de um novo mecanismo de governança da internet que possa estabelecer limites à invasão da privacidade. A ideia é condenar o unilateralismo americano e os abusos da NSA e repisar a necessidade de respeito ao papel da ONU na busca de soluções negociadas a crises internacionais, como o caso da Síria.

A necessidade de reforçar o multilateralismo nunca foi tão urgente e será a diretriz principal do Itamaraty, segundo um assessor palaciano. De acordo com a mesma fonte, embora a decisão sobre a visita de Dilma a Washington seja tratada oficialmente como “adiamento”, dificilmente ela ocorrerá durante o mandato de Obama. Um detalhe deixou Dilma especialmente indignada. O material recolhido pela NSA no Brasil, além de recebido pelas agências americanas, foi distribuído aos cinco aliados preferenciais de Washington nessa matéria: Reino Unido, Canadá, Nova Zelândia e Austrália. Para o historiador americano James Green, da Brown University (EUA), o tratamento dispensado ao Brasil, um aliado de longa data, é inaceitável. “Os EUA têm de entender que, apesar de ser uma potência militar e uma economia forte, precisam atuar com menos arrogância e unilateralismo”, avalia Green.

O cancelamento da visita de Estado, porém, pode trazer prejuízos para o País do ponto de vista econômico. Não é de hoje que uma espécie de distanciamento entre o Brasil e os EUA tem afetado os negócios e acordos bilaterais. E o Brasil não pode desprezar o maior mercado do mundo e maior importador de produtos de valor agregado, no momento em que pavimenta novamente o caminho rumo ao desenvolvimento. As empresas nacionais que têm negócios nos EUA dão sinais de preocupação. O professor de política internacional da Faap Bernardo Wahl alerta que alguns movimentos no tabuleiro internacional podem ter “consequências imprevisíveis”.
O historiador Alberto Moniz Bandeira aponta outro efeito concreto. “Com certeza, o Brasil não comprará os caças americanos F-18”, diz. Para ele, um acordo de tamanho potencial estratégico dificilmente poderá ser firmado agora. Na cúpula da Força Aérea, esperava-se que a compra dos 36 aviões de combate fosse anunciada na visita de 23 de outubro, dia do Aviador.

“É um grande choque”, disse à reportagem um alto oficial ligado ao gabinete de Juniti Saito, comandante da FAB. Segundo o oficial, Saito ficou desapontado. “Tudo que a gente quer agora é uma definição, seja qual for”, diz a fonte. Ele lembra que os Mirage 2000 sairão de circulação no final do ano. O maior temor na Aeronáutica agora é que o governo decida reabrir a licitação, com a participação do Sukhoi, como forma de retribuir a ajuda dos russos.

FONTE: ISTOÉ, via Notimp

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