sexta-feira, 5 de setembro de 2014

B-17 - Fortaleza Voadora

   Ele não foi o maior, nem o mais poderoso, nem o de maior alcance nem sequer o mais avançado avião de bombardeiro da II Guerra Mundial. Perdia para o B-29 em sofisticação e poder de fogo e para meia dúzia de outros concorrentes em altitude de voo, levava cinco vezes menos bombas que um Lancaster inglês e sua velocidade era menor que a metade da velocidade máxima do Arado alemão. Mas salvou a Boeing da falência e ajudou a derrotar a Alemanha e o Japão. Simplesmente por que estava disponível na hora em que era mais necessário.

   Ele (ou ela, a ´Fortaleza voadora``) era um quadrimotor de 19 toneladas que qualquer cadete recém saído do treinamento podia pilotar e que custava para construir aproximadamente um décimo do preço de um pequeno jato comercial moderno do mesmo peso como o ERJ 145 da Embraer. A história do B-17 começou nos anos 30, fruto de uma disputa entre o Exército e a Marinha dos EUA sobre qual a melhor maneira de defender o imenso litoral do país de uma invasão inimiga.
   A Marinha insistia numa esquadra poderosa quando a Aviação do Exército lançou o ´´Projeto A`` para desenvolver um bombardeiro com alcance de 7.500KM capaz de transportar  1 tonelada de bombas a 300Km/h. Mais ainda: o novo avião teria que ser capaz de se deslocar rapidamente para reforçar as posições americanas na Havaí, no Panamá e no Alasca sem instalações especiais para recebe-lo. O desafio tecnológico era grande, mas foi aceito pela então jovem Boeing Airplane Company, que não tinha tradição para por em risco com um eventual fracasso. O resultado foi um bombardeiro de linhas elegantes e asas largas para decolar e pousar lentamente e voar longe.

   O protótipo tinha quatro motores Pratt & Whitney R-1690-E, de 750 HP cada. O primeiro protótipo voou no dia 28 de Julho de 1938, e foi designado YB-17 pela Aviação do Exército. Pouco tempo depois foi transferido para a base militar de Wright Field, para ensaios de serviço, e nos meses seguintes pulverizou todos os recordes anteriores de outros bombardeiros norte-americanos em altitude de voo, autonomia, velocidade de cruzeiro e docilidade de comandos.
   Num esforço para divulgar a capacidade bélica do país, os norte-americanos enviaram, em Fevereiro de 1938, seis de seus novos B-17 num voo de boa vizinhança entre Miami e Buenos Aires. Um segundo lote de 50 bombardeiros B-17 foi encomendado em 1938. O avião já estava Desenvolvido, pronto para uso. E ainda melhor depois de equipado com o novo visor de bombardeiro Norden que a propaganda governamental de Washington alardeava ser capaz de acertar uma bomba num barril de picles de uma altitude de 10.000 metros.

Novo Contrato

   Para  treinar ainda melhor seus pilotos o Exércitos enviou , em novembro de 1939, sete bombardeiros B-17 em voo direto até o Rio de Janeiro, pouco antes da assinatura de outro contrato para mais 38 dos novos aviões firmado com a norte-americana Boeing. Esses seriam da versão B-17C, a primeira considerada operacional. Nela foram eliminadas os casulos aerodinâmicos para metralhadoras nos flancos da fuselagem e os motores substituídos pelos novos Cyclone GR-1820-65,de 1.200 HP cada. Mas quando a II Guerra começou, em setembro de 1939, a USAF (Força Aérea Americana) possuía apenas 23 Fortalezas Voadoras operacionais.

   A Boeing desenvolveu a versão B-17E, que possuía deriva bem maior, torres defensivas na cauda e na barriga e substituía quase todas as metralhadoras .30 por novas .50. Na Europa foi criada a Oitava Força Aérea dos EUA, com sede na Inglaterra, e logo a B-17 se transformou na sua principal arma de ataque, tendo a primeira pousado em Prestwick, em Julho de 1942 exatamente enquanto as B-17 Sobreviventes da invasão nipônica se retiravam para a Austrália. A Real Força Aérea recebeu 45 desses aviões da versão E em meados de 1942 e logo em seguida os selecionou em razão de sua grande autonomia para patrulhar o oceano caçando submarinos nazistas.
   A versão F surgiu em Abril de 1942, com nariz alongado, armamento melhorado e sistemas de bordo mais sofisticados. Pesava uma tonelada à mais que a versão ´´E`` e possuía melhorias no freios, portas bombas, sistema interno de comunicações e alimentação de oxigênio. A produção seriada de B-17F prosseguiu pelo período de 11 meses. Esse modelo foi o principal elemento do início dos ataques diurnos pesados norte americanos às indústrias da Alemanha.

O Por que do apelido

   Foi quando as Fortalezas Voadoras precisaram justificar seu apelido belicoso, já que os caças da Luftwaffe passaram a ataca-las prioritariamente causando perdas de até 10% nas missões mais longas. Cada B-17F/G transportava de 11 a 13 metralhadoras pesadas de até 5.770 cartuchos de 12,7mm para defesa. Mas em um ataque de 291 fortalezas voadoras contra instalações industriais de Schweinfurt, 60 foram derrubadas, forçando  a Oitava Força Aérea a não mais se aventurar sem proteção de escolta de caças nos céus da Alemanha. No Pacífico a grande autonomia da B-17 ajudou os Aliados a empurrar de volta as forças nipônicas que tinham chegado ás proximidades da Austrália, enquanto no Mediterrâneo as B-17 ajudavam a destruir forças alemãs e italianas, primeiro no Norte da África e depois na própria península italiana, na Grécia e na Iugoslávia.
   Em fins de 1944 e no início de 1945 a vida útil operacional do B-17 estava chegando ao fim. Em Agosto de 1944 os norte americanos tinham ainda 4.574 desses bombardeiros em operação na Europa, mas começaram a introduzir outras versões especializadas. Os ingleses equiparam alguns com sistemas eletrônicos para embaralhar os radares da defesa alemã durante seus ataques noturnos, enquanto os norte americanos equiparam outros para fazer reconhecimento fotográfico sobre regiões a serem bombardeadas. Alguns B-17 receberam sob o ventre grandes barcos de salvamentos para serem lançados de paraquedas a náufragos no mar, enquanto a torre sob o nariz era substituída por uma antena da radar.

   Mesmo assim, durante a II Guerra, os B-17 lançaram 640.036 toneladas de bombas sobre alvos do eixo na Europa, contra 452.508 toneladas lançadas pelos B-24 Liberator. Cobraram um alto preço para isso: relatórios estudados após a Guerra mostram que as defesas das fortalezas voadoras destruíram em média 23 caças inimigos a cada 1.00 missões de ataque realizadas, contra 11 destruídos pelos caças americanos. No Pacífico os aviões B-17 logo cederam lugar os modernos B-24 e aos B-29. Mas mesmo assim, sua participação foi muito importante para a vitória na Ásia.

No Final da II Guerra

   Com o fim da II Guerra o B-17 saiu rápido das unidades de bombardeiro, embora muitos permaneceram em uso em missões  secundárias como as de busca e salvamento no mar, ligação, transporte, espionagem eletrônica, apoio À exploração cientifica na Antártida e no Ártico e caças aos icebergs que ameaçavam a navegação mercante. Aviões B-17 foram usados pelos norte americanos na Guerra da Coréia (1951-1953) e como aparelhos de Aerofotogrametria pelos franceses até os anos 70. Os israelenses utilizaram alguns como bombardeiros na campanha de 1956.

   O Brasil recebeu seus primeiros B-17 no inícios dos anos 50, na sua maioria das versões E, de bombardeiro, e PB-1G para missões de busca e salvamento. Quando o país enviou tropas para ajudar as forças da Organização das Nações Unidas(ONU) a vigiar a paz no Oriente Médio, em meados dos anos 50, foram os B-17 da FAB que por primeiro fizeram voos levando e trazendo pessoas, remédios e correspondências entre o continente africano e o Brasil. Os B-17 da FAB voaram nessas missões até que foram enfim substituídos pelos cargueiros C-54, mais apropriados para esse tipo de missão de transporte. A retirada de serviço do derradeiro B-17 da FAB encerrou também, não sem deixar saudades, o último capítulo na história de um dos mais versáteis quadrimotores da história da aviação militar. 
   Restaram no mundo tão-somente uns poucos exemplares, que viraram peças de museu ou passaram a integrar coleções de aeronaves histórica.
Por: Roberto Pereira
Digitação: Rock & Aircraft

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