quinta-feira, 25 de maio de 2017

O "ex-soldado" que coleciona aviões


           Adentrando na temática de cultura aeronáutica, e em especial a da preservação histórica e colecionismo, apresento a história interessante de um colecionador francês, que passa a excentricidade em suas coleções, devido não só a uma paixão antiga pela mecânica como pelo desafio pessoal diante de adversidades e circunstâncias particulares de sua vida e de sua curta carreira militar.

           Ao chegar no Chatêau de Savigny-lès-Beaune na região da Bourgongne a impressão é óbvia de ser apenas mais um dos muitos castelos pertencentes à alguma das muitas famílias de nobres que ainda existem na França, que são preservados por ostentação ou por amor à história, mas nesse castelo existe algumas coleções das mais interessantes que já tive a oportunidade de ver "in loco". O Chatêau de Savigny-lès-Beaune possui em seu interior; coleções de carros (inclusive com a maior coleção particular de carros Abarth do mundo), motos, caminhões de bombeiros, maquinário agrícola de diversas épocas, vinhos exóticos, aparelhos de rádio-comunicação, itens de militaria, ferramentas, armas de todas as épocas, maquetes de todos os tipos e aviões!

São atualmente 102 aviões inteiramente montados no local e o orgulhoso proprietário do castelo e das coleções, ainda aguarda a chegada de pelo menos mais 10 caças que estão em negociações ao redor do mundo. A coleção é  em sua maioria de caças à reação de diferentes tipos e modelos, pois são a preferência  pessoal do "Mousieur Michel Pont", porém existem alguns diferenciados como um N/A T-6 Texan, um Hovercraft, alguns helicópteros Sikorsky dos anos 50 e até mesmo 2 bombardeiros estratégicos Mirage IV.

           Todos estão expostos no terreno externo que já foi uma plantação vinícola e um jardim, do começo do século XX até os anos 70 quando Mr Pont começou sua excêntrica coleção de carros, motos e aviões. Apesar das críticas de muitos entusiastas que trabalham com preservação aeronáutica e a insinuações que as aeronaves estão estragando ao relento, devemos nos atentar ao fato que poucos colecionadores particulares permitem a livre visitação pública de seus acervos, e, mesmo estando ao ar livre, notei que os aviões estão em melhor estado de conservação e limpeza do que muitos outros que estão expostos em praças públicas pelo mundo afora e até mesmo em museus ou hangares, e também devemos nos atentar ao fato que se não estivesses aqui, certamente teriam sido transformados em sucata.

           O Mr. Pont afirma que apesar de ser um homem que conta com certos recursos, ainda não teve a oportunidade de negociar um espaço adequado para a colocação dessa centena de aeronaves. Afirma que seu sonho ainda é "comprar" uma parte de alguma base aérea das muitas que estão a ser desativadas pela França ( a exemplo da Base da ALAT de Lyon/Corbas, que hoje abriga o Musée Clément Áder, também conhecido como EALC- Espace Aéro Lyon Corbas, mantido por uma associação de aficionados e ex-militares dessa base extinta) ou até mesmo de mandar construir uma réplica de uma base aérea em escala reduzida, porém o mesmo confessa que não quer cometer excessos, pois sua prioridade é achar e resgatar aviões pelo mundo que possam ser preservados, mesmo que para isso ele tenha que estocar desmontadas essas aeronaves em seu terreno do Chatêau, e, deixar a missão da compra e de montagem de um museu em um local mais adequado para seus herdeiros ou outros que se interessem pela empreitada após sua morte. 

            Aos 91 anos, Mr. Pont ainda trabalha todos os dias (fato que comprovei ao encontrá-lo em quatro finais de semanas nos quais fui recebido em seu Chatêau museu) e ainda viaja para outros países para fechar negócios quando encontra aeronaves que consegue comprar de fontes diversas ou trocar com outros colecionadores e museus pelo mundo. De viagens à museus e a regiões de conflitos, o Mr. Pont é uma daquelas pessoas que tem uma bela coleção de carimbos em seus passaportes e de aventuras para contar em sua paixão pela busca de aeronaves para sua coleção, afirma que ao contrário do que muitos imaginam, suas negociações mais difíceis foram justamente com forças aéreas e museus de outras nações, e as mais fáceis, com rebeldes insurgentes na África, aonde ele conseguiu seus primeiros aviões Mig nos anos 90.

Como tudo começou...

           Desde meu primeiro contato com Mr. Pont, o mesmo se mostrou sempre amistoso e disposto à conversar muito, Mr. Pont é sempre bem acessível e nunca se vale de intermediários ou assessores para ter contato com as pessoas. Sua paixão pela mecânica e pelas máquinas em geral começou na infância, com a admiração pelo motociclismo e automobilismo, na época já gostava de aviação, mas devido a falta de tempo e influências de amigos e para ganhar a admiração das garotas, ele se dedicava mais ao motociclismo e corridas com carros Abarth ( o mesmo foi campeão de várias provas na Europa).

           Apesar de ser de uma família de origem nobre e relativamente abastada, Mr. Pont e sua família conheceram anos difíceis como muitos outros franceses no período da 2a Guerra e nos anos do  pós guerra, o que acabou por não poupar Mr. Pont de suas paixões, e, no serviço militar obrigatório ele reencontra a oportunidade de estar perto da aviação que admirava.

           Durante seu período de serviço militar obrigatório estendido na Armée de l"Air (Força Aérea da França) na Base Aérea de Dijon, Mr. Pont é enviado à Guerra da Argélia (1954 à 1962) e lá ele tem contato mais intenso com todas as atividades da aviação de combate, e como soldado, ele trabalha na manutenção de diversas aeronaves de combate que foram usadas no conflito franco-argelino.

           Em uma das nossas muitas conversas, o comunicativo Mr. Pont revela como foi o pontapé inicial de sua "coleção", motivada não só pela paixão da aviação como para provar ao seus superiores que não era um espião à serviço soviético ou colaborador dos rebeldes magrebinos da Argélia. Durante uma das muitas missões de recolhimentos de peças e destruição de carcaças de aeronaves que se acidentavam no deserto da Argélia, o então "Soldado Pont" sempre aproveitava para levar algum "souvenir" para sua coleção pessoal, geralmente instrumentos aniônicos e partes dos lemes de direção das aeronaves. Porém existia a preocupação não só com os espiões e sabotadores que lutavam pela causa da Argélia como também os espiões soviéticos, afinal era o auge da Guerra Fria, e qualquer item industrial militar de fabricação francesa era considerado algo a ser protegido, e, sendo assim o "Soldado Pont" não escapou a sérios e duros interrogatórios, e até mesmo, a receber severas punições disciplinares por conta da desconfiança que envolviam suas ações de "colecionismo"...

            Então após "confessar" aos seus superiores que seu interesse era apenas o colecionismo para preservação, e, que ele tencionava  fazer um museu quando possuísse mais itens (inclusive aeronaves), o "Soldado Pont" obviamente foi ridicularizado por todos, afinal apesar de suas origens nobres, todos sabiam que sua família era falida e até mesmo passava dificuldades na época.

A volta por cima...

           Ao deixar o serviço militar após 4 anos na Armée de l"Air, Mr. Pont se empenha ferrenhamente em recuperar os negócios da família, cuida de atividades ligadas à vinicultura e abre algumas oficinas mecânicas voltadas para o automobilismo e motociclismo, volta a participar de competições no meio e torna-se um campeão na maioria das provas que participa, e, obviamente emprega todos os prêmios em dinheiro para seus negócios e também para iniciar sua fantástica coleção.

           Mr. Pont tentou por mais de uma vez concluir o curso de piloto civil, mas sempre encontrou dificuldades em conciliar o tempo entre os negócios, estudos e viagens pelo mundo. Para sua surpresa, logo após comprar alguns aviões De Havilland Vampire de sobras militares da RAF, e da Força Aérea da Suíça, sua fama de colecionador/preservador já corre o meio aeronáutico, e graças às  muitas amizades feitas na Armée de l"Air nos tempos de serviço militar, Mr. Pont acaba por ganhar algumas carcaças desmontadas de aviões da Armée de l'Air que seriam destinadas para sucateamento. Essas "carcaças" acabaram por ser remontadas e assim sua coleção começou a ganhar notoriedade e respeito das autoridades da Armée de l"Air. Os anos se seguiram e Mr. Pont enriquece, e com isso consegue intensificar sua busca por aeronaves ao redor do mundo, busca essa que o leva à diversos países das Américas, África, Ásia e Leste Europeu, aonde ele consegue diversos tipos de aviões MIG´s e Sukkois (todos caças) entre outros. E na grande maioria dos  casos, o transporte da aeronave acaba sempre saindo mais caro que os valores pagos pelas mesmas. Mr. Pont revela que um dos vários MIG´s que ele possui (um MIG 15), saiu mais barato que a compra mensal de supermercado que ele faz para abastecer sua casa (mas que para rebeldes na Etiópia foi uma bagatela), porém os trâmites para trazer e montar tal item de outro continente e legalizá-lo na França acabaram por encarecer 10 mil  vezes o valor pago pelo MIG, mas apesar de tudo, Mr. Pont não se arrepende e muito menos se desestimula de novas aventuras para conseguir aeronaves diferentes para sua coleção, mesmo aos 91 anos de idade.

           Outra "lenda" que circula pelos meios dos colecionadores de aviões na Europa é a da história que, um dos MIG´s da coleção do Mousieur Pont, foi "trazido" pelo mesmo, com a ajuda de alguns amigos entusiastas da Ucrânia, quando essa ainda era uma república da ex-URSS, comprado em perfeitas condições de voo de uma base que na época estaria "vendendo" de tudo às escondidas dos russos para fazer caixa antes do já previsto colapso da URSS. Mas como sempre, quando o assunto é passível de polêmica, Mr. Pont não nega e nem confirma, e me convida para outro café com bolo na cozinha...

           Sua relação com a Armée de l'Air e outras Forças Aéreas da Europa já é bem consolidada, e graças ao trabalho sério de preservação, Mr. Pont consegue a doação de muitos outras aeronaves de nações vizinhas e até mesmo dos EUA, sendo que sua coleção possui um exemplar original de um N/A F-100F Super Sabre que pertenceu aos Thunderbirds da USAF, um Dassault M-450 Ouragan, um Dassault Mystére IV e um Fouga Magister que pertenceram a Patrouille de France, e até mesmo um General Dynamics F-16A da Força Aérea da Bélgica, entre outros.

           Não obstante todo o orgulho que Mr. Pont tem de sua coleção e das amizades que fez durante anos, ele revela que uma de suas maiores surpresas foi o reencontro com um dos oficiais que o punira severamente durante o serviço militar, sob acusação de suspeita de espionagem/desvio de peças durante Guerra da Argélia, e, em uma das muitas solenidades de entrega de medalhas que  participou, o mesmo que na época era tenente, na ocasião estaria condecorando o Mr. Pont pelos seus serviços de preservação aeronáutica, agora o ex-2 Tenente, já no cargo de General da Armée de l"Air (nome não revelado pelo Mr. Pont), e ambos são amigos até hoje e sempre que podem efetuam esforços para salvar aeronaves pela Europa.

           Sua coleção tomou o formato que conhecemos hoje dentro do terreno do seu castelo particular à partir dos anos 80, pois o conhecido "Chatêau de Savigny-lés-Beaune, nunca foi uma propriedade de sua família ou herança distante como muitos pensam. O castelo (que tem uma história de mais de 500 anos) pertenceu a outras três diferentes famílias de nobres falidos,  esteve semi-abandonado até os anos 60/70, e foi um dos locais que o então jovem Michel Pont gostava de se aventurar com os amigos mais corajosos em sua infância e pré-adolescência, e obviamente, foi um dos objetivos de conquista do ex-Soldado Pont, que mais tarde se tornaria o famoso empresário e corredor Mr. Pont.

            Mr. Pont confessa que gostaria muito de ter seguido a carreira militar, mas que hoje, mais esclarecido, sente que não teria sido a melhor decisão para sua vida, pois o mesmo sempre se decepciona quando sabe o quanto os jogos de poder da  política acabam por interferir nas atividades finais dos militares. Porém apesar disso ele ainda se sente um "militar de espirito", e faz tudo em sua vida com a mesma disciplina e senso tático/estratégico como se ainda estivesse na caserna, porém com mais óbvia flexibilidade.

           Apesar do mesmo possuir título oriundo da nobreza napoleônica, Mr. Pont é extremamente discreto e não revela qual é esse título e outros detalhes de sua família. Muitos acreditam que ele possui o Título de Barão ou Conde, porém o Mr. Pont não nega nem confirma, nem sua nobreza ou se possui estudos de nível superior, e, acaba sempre pedindo para mudar de assunto quando indagado à respeito, elegantemente convidando seus visitantes curiosos para um café ou taça de vinho no restaurante de seu incrível Chatêau museu...

O que "falta" na coleção do Mr. Michel Pont?

           Como todo bom colecionador, Mr. Pont sente falta de "ítens raros" ou difíceis, e nesse caso, existem muitos dos "ítens raros" à buscar por ai. Os desejos vão desde pelo menos um  F-4 Phanton II que tenha sido usados na Guerra do Vietnã até mesmo caças a jato alemães da 2a Guerra. Mas o que ele ainda quer ver em sua coleção é um avião de caça que tenha sido originalmente usado e/ou fabricado no Brasil, declara a admiração pela aviação de caça brasileira e o esforço de nossa indústria aeronáutica criativa. Sabe que o Brasil possui poucos museus aeronáuticos e gostaria de um dia efetuar uma "troca de presentes", estudando a troca de uma aeronave que esteja disponível em seus excedentes, e,  que seja de interesse de alguma instituição brasileira, por um caça Embraer A-1 (AMX), Northrop F-5 ou um Embraer Xavante. Caso alguma autoridade e/ou colecionador particular queira saber mais detalhes, me coloco à disposição para maiores informações.

Fonte/Fotos: Orbis Defense

orbisdefense.blogspot.com.br

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